Homilias › 01/04/2019

Homilia Pe. Silvio – 4º Domingo da Quaresma – ANO C

1ª leitura: Josué 5, 9-12
2ª leitura: 2 Coríntios 5, 17-21
Evangelho: Lucas 15, 1-3.11-32

HOMILIA

A palavra JUSTIÇA do latim significa “os esforços humanos para buscar a verdade”, enquanto na justiça penal do direito a lei é “quem cometeu um delito ou crime pague por ele”.
É desconcertante a justiça divina como afirma o Apóstolo Paulo: “Deus fez Cristo pecado por nós, para que nele sejamos salvos e nos tornemos justiça de Deus”.
“Por Cristo, Deus nos reconciliou consigo e nos confiou o mistério da reconciliação”.
Aqui está o centro da mensagem do Evangelho de hoje.
Se um dia você ouvisse dizer que Deus acabará perdoando a todos e que acolherá na sua casa também os pecadores, você acharia justo?
Você acha justo um irmão novo que gasta sua herança nos prazeres da farra e do consumismo e ao voltar sujo e com fome, sem nenhum dinheiro no bolso e encontra o filho mais velho e suado, cansado, exausto de trabalhar por dois, camelando no sol quente com enxada na mão e um pai que parece nunca valorizá-lo a ponto de nunca lhe ter dado um cabrito para festejar com os amigos?
Será que o filho menor depois de acolhido com pompas e festas pelo pai, começará a criar juízo ou então, após um mês e pouco, vai embora, outra vez, começando tudo de novo?
Você quer tentar concluir a história? Essas perguntas têm como objetivo despertar a nossa reflexão e ajudar a entender a MENSAGEM do Evangelho.
Costumamos chamar de “a parábola do filho pródigo”, mas não seria conveniente chamá-la de parábola de pai amoroso, bondoso e misericordioso?
Só a 1ª parte do Evangelho fala do filho mais novo; a 2ª parte do filho mais velho e toda a história do pai amoroso.
O filho mais novo provavelmente tomou a decisão de ir embora porque considerava o pai um tirano, impondo sempre sua vontade, não deixando fazer o que quer e nem satisfazer os próprios caprichos. O mais velho que pretende ter direito e recompensas considera o pai um patrão cujas ordens devem ser seguidas à risca.
O mais novo talvez achando que não conseguirá aguentar o ritmo alucinante do irmão mais velho resolve ter outro tipo de vida, abandona tudo e vai (junta suas coisas e some), não quer perder as melhores oportunidades rápidas da juventude para gozar a vida.
*O pai não impede, não fala uma palavra sequer: é como Deus que respeita a liberdade e escolhas do homem embora tendo já mostrado o melhor caminho. O mais novo estava em busca de aventura, mas nem todos na comunidade buscam aventura.
O irmão mais velho ficou e representa aqueles que se sentem no direito de julgar e condenar os que pensam de maneira diferente. São eles que às vezes, inventam uma religião feita de exterioridades, de formalismos, liturgias, espetáculo. Celebram a Eucaristia em meio a divisões, invejas, ciúmes e mesquinharias, criando um clima insuportável na comunidade. Por isso muitos se afastam, decidem ir embora.
Longe de casa o filho mais jovem não encontra a felicidade que esperava. A busca dos prazeres: drogas, bebidas, contínuas baladas, falsos amigos, consumismo, aberrações sexuais, festas, excursões, etc., caba provocando náuseas; não satisfazem.
Vem o DESENCANTO, o que permite recuperar a consciência.
Pelo que se percebe o jovem não está preocupado com o sofrimento causado ao pai, mas com a fome e a carência que está passando, por isso pensa:
Meu Deus! A que ponto cheguei? Sou mesmo um filho degenerado? Desse jeito vou morrer como um cão vadio. Que tal pedir perdão ao pai e abraçá-lo novamente? Sei que não mereço nem uma xícara de chá, mas quero pão. Volto como empregado.
É escandalosa a atitude do pai. Não lhe pergunta nada. Simplesmente corre ao encontro do filho esbanjador, abraça-o, oferece-lhe banho, roupas, sandálias, anel, celebra uma festa. Quer alegria. Seu coração pulsa forte, contempla o banquete e o filho.
Senta-se ao lado dele, põe comida à boca do filho, abraça-o com ternura de pai, beija-o, afaga-lhe os cabelos.
O pai aqui é como um jovem perdidamente apaixonado por uma moça: não desanima nunca, não desiste, nem mesmo depois de repetidas recusas dela. Insiste, dedica-lhe mil delicadezas, envia-lhe flores e presentes, sussurra-lhe palavras cheias de ternura, promete-lhe céus e terra, só quer conquistar o coração da jovem. Quer um final feliz: a festa, o casamento…
Assim é Deus. Ele ama apaixonadamente todos os homens, não se resigna a uma derrota. Ele deixa sim, o homem livre, mas o persegue com seu amor onipotente. Esse é o Deus de Jesus Cristo.
O filho mais velho representa os fariseus e mestres da lei que criticavam Jesus porque acolhia e sentava-se a mesa com os pecadores. O filho mais velho considerando-se justo e zeloso usa de palavras DESAFORADAS. Se o irmão mais velho estivesse em casa na hora da volta do mais novo e o Pai não, com certeza o mais novo não teria entrado nunca!
Assim acontece em nossas comunidades. Os JUSTOS levantam barreiras bem altas para impedir a volta daqueles que desgarraram na vida.
Quantos não voltam porque não suportam “olhares e bisbilhotices dos irmãos mais velhos de Igreja” e acabam se afastando definitivamente, procurando algum lugar ou alguém que manifeste compreensão e que não o condene?
O filho mais novo usa 5 vezes a palavra “meu pai” e o mais velho ao contrário “Este teu pai” ou “este teu filho”. Rejeita o irmão, mostra assim que não considera um filho e sim que tem o pai como um patrão, portanto, sente-se um empregado.
Sua atitude é como a daqueles cristãos que não se sentem filhos amados, mas simplesmente cumpridores de ordens.
Imagino o pai falando ao filho mais velho que não queria entrar na festa: “Filho se eu der um cabrito para você e para seus amigos é um DESPERDÍCIO: vocês não sabem fazer uma festa, vocês não sabem brincar, quando estão juntos só sabem falar de negócios, falar mal dos outros, de cumprir ordens, de levar vantagens, de ter crédito.
Filho, eu te garanto, nesta casa há mais alegria hoje do que quando se reúnem 99 amigos como você!
Imagino o mais novo: “Vem pra festa irmão. Só falta você! Na festa só tem gente como eu! Os teus amigos foram convidados, mas não quiseram vir. Une-se a nós nessa alegria do perdão e da misericórdia.
Concluindo: queridos irmãos, nas leituras de hoje há um convite para a celebração e para a reconciliação. Implica em mudarmos nossa visão sobre Deus e nossa relação com ele, de amor gratuito e filial.
Enquanto pensarmos que somos justos, faremos mau julgamento das pessoas que não seguem nossos padrões religiosos Agindo assim, seremos incapazes de sentir a necessidade de reconciliação com Deus e com o próximo.

Padre Silvio Roberto
Pároco

(Esta homilia está disponível no site www.meninojesusdepraga.org.br e na comunidade do Facebook Adoradores da Palavra do Pe Silvio)

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