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Conheça o outro lado do pároco

Uma heresia. Encontrar o lado B de um padre, pior, do padre Silvio, adorado por milhares de fiéis. Mas ele tem histórias. Cantor, escritor, modelo, psicólogo, trabalhou na TV e organizou cidades_LadoBconcursos de misses. Até com o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, ele já trocou uma ideia. Ao chegar ao apartamento onde ele mora, a primeira coisa notada foi uma mandala na porta, será o padre um exotérico? Não, depois ele explica que quando a Igreja comprou o apartamento, a peça já estava lá e ele não se importou em deixar.

A porta é aberta por Silvio Roberto dos Santos, 66 anos, pároco da Menino Jesus de Praga, no São Manoel. Ele estava de bermuda, camiseta e descalço. O apartamento é bonito, com diferentes imagens de santos, de Nossa Senhora, crucifixos e rosários. Plantas na sacada. É de bom gosto e simples ao mesmo tempo. A história de padre Silvio já foi inúmeras vezes contada, seja por jornalistas ou por ele próprio, que virou celebridade por trabalhos que fez e foi entrevistado em vários programas de TV, entre eles Fantástico, Jornal Nacional, Faustão, Hebe Camargo e Jô Soares.

Neste último, o padre teve de fazer a vontade do entrevistador e pousou de modelo. “O Jô Soares foi meu primeiro produtor em uma campanha publicitária, ele lembrou-se de mim e me fez desfilar no palco”, conta. Padre Silvio foi modelo de passarela, morou na Itália, e foi backing vocal do cantor Tico da Costa em shows por toda a Europa. Muito cedo, a vocação para padre despontou. Ainda criança fazia procissões, batizava bonecas, rezava missinhas e tinha um cemitério para animais onde fazia “os velórios”. Costumava visitar pessoas doentes e levar pão para os pobres.

Com 14 anos entrou no seminário de Rio Preto onde ficou até 1973. “Fui fazer uma experiência fora”, resume, sobre o momento que decidiu conhecer a vida longe da proteção dos muros da Igreja. Cursou filosofia em São Carlos e foi para São Paulo. “Trabalhei na TV Tupi no Miss Brasil e em uma loja na Augusta, que era um ponto chique na época. Um caça-talentos me descobriu e fui ser modelo”, recorda. Em Milão participou do Movimento dos Focolares e, entre shows e desfiles, fez cursos de teologia e se formou em psicologia.

“Em junho de 1976 eu voltei para o seminário e me ordenei sacerdote no dia 27 de julho de 1978. Logo em seguida fui mandado para Votuporanga para fundar a paróquia Santa Luzia.” No começo as coisas não foram fáceis para o padre. A paróquia ficava em um ponto ainda não tão habitado. A casa que alugou não tinha cama ou guarda-roupa, as peças eram penduradas em um arame que ele colocou no quarto. Sem carro, percorria a cidade a pé para conhecer a comunidade e difundir a fé. Foram 34 anos em Votuporanga e uma lista de cerca de 70 projetos que desenvolveu. Desde a fundação de cinco outras paróquias até trabalhos feitos com crianças, jovens, adultos, idosos, pobres e misses.

Trump

A atuação de padre Silvio em concursos de misses fez com que ele fosse conhecido em todo o mundo. Conseguiu emplacar seis misses Brasil, várias misses São Paulo e também o mister Brasil e Mundo, todos de Votuporanga. Quando o SBT parou de promover o evento, ele meio que degringolou, e o padre escreveu uma carta para o então detentor da franquia, ninguém menos que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. “Ele passou a franquia para mim e para a modelo Patrícia Godoy, mas nenhum de nós queria e indicamos o Paulo Max, que era o apresentador do Miss Brasil nos Diários Associados.”

Foi quando o padre teve uma ideia maior e criou o projeto Beleza com propósito. “O slogan era: Emprestar a beleza para aqueles que a vida não era tão bela”, conta. As misses deveriam trabalhar em prol dos pobres e necessitados. Ele foi convidado pela organização do Miss Universo a ir aos Estados Unidos falar sobre o projeto para coordenadores de concursos de 78 países. Também foi a época em que o padre virou uma celebridade, passou a dar entrevistas e viajou por 18 países, sempre expondo seu projeto.

Comunidade terapêutica

Depois de cerca de dez anos atuando no universo das misses, o padre decidiu que era hora de parar. “Tudo o que eu queria era ficar quietinho na minha paróquia”, diz. Mas ele não parou. Entre seus feitos, fundou a comunidade terapêutica Nova Vida para a recuperação de dependentes químicos, em 1987, e que existe até hoje. Atualmente é comum, mas na época não, e lá vai padre Sílvio dar entrevistas e falar sobre a comunidade para a Organização das Nações Unidas (ONU). “O diretor leu o meu projeto, me chamou para almoçar e destinou US$ 100 mil para a comunidade, mas dividi com outras ações no País que promoviam a recuperação de dependentes”, conta.

No dia 27 de dezembro de 2011, há cinco anos, padre Silvio foi transferido para a paróquia Menino Jesus de Praga de Rio Preto. “No começo foi dolorido, é como arrancar uma árvore pela raiz que havia ficado 34 anos num mesmo local. Cheguei de mansinho e acredito que com este meu estilo existencial, acabei sendo acolhido pela comunidade. Houve interação entre nós.” Ele diz que a transferência se deu porque, na época, ele era o assessor do Setor de Juventude Diocesano e tinha que se preparar para o Encontro Mundial da Juventude, que houve no Rio de Janeiro.

Como suas celebrações lotam de fiéis? A missa de cura e libertação, sempre na primeira terça-feira de cada mês, recebe até 1,2 mil pessoas. “Não tem segredo. A minha grande preocupação é fazer uma experiência de Deus durante a celebração. São dois momentos, o da espiritualidade, que faz parte do rito, e a experiência mística. Deus é amor, quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele. É preciso silenciar o coração para ouvir a voz do amor de Deus”, ensina. O padre chega a cantar músicas de Nando Reis durante a celebração.

Chega a hora de pedir para o padre dizer quem é Silvio sem a batina. E foi espinhoso esse momento, com perguntas básicas sobre gosto musical até questões sobre sexualidade. “Sou tranquilo quanto a isso (sexo). Como disse São Paulo: ‘Tudo posso, mas nem tudo me convém’,” saiu-se o padre. E mais perguntas. O que o senhor fez no Natal? “Depois da celebração da missa, levamos comida para as pessoas em situação de rua. O almoço passei com a minha família (a irmã Maria Hermínia, o cunhado e os sobrinhos) em Votuporanga”. E o Ano-Novo? “Levamos ceia para as pessoas em situação de rua.”

Quando não está a serviço de Deus ele diz que lê muito. “Pesquiso muito a Bíblia para as minhas homilias e gosto de assistir filmes água com açúcar, comédias.” Não tem medo da morte. “Creio nas promessas divinas da vida eterna. A palavra morte significa sono e cemitério significa dormitório. A morte faz parte da vida.”

Defeitos? “Sim, tem duas coisas que não gosto: o tempo todo estou atento contra a preguiça, que pode tornar uma pessoa negligente, me apego ao meu ideal de vida e a supero”. Difícil acreditar com o “currículo” que esse padre tem. “Também meu excesso de espontaneidade. Já perguntei para uma moça se estava grávida e ela respondeu que estava gorda. Dias atrás falei para uma criança que a avó, uma mulher de cabelos muito brancos, havia chegado para buscá-la, e a criança respondeu que era sua mãe. Estou tentando me controlar”, diz.

Com pimenta

Padre Silvio conheceu a vida fora dos muros do seminário, trabalhou como vendedor de uma loja de grife, foi modelo e cantor. O glamour que marcou parte de sua vida não o abandonou. Em sua casa estava vestido com uma bermuda xadrez em verde e azul e uma camiseta vermelha, que não combinavam. Ele disse que trocaria de roupa para a foto. O estilo modelo de passarela não serve mais, com os anos ganhou uma certa barriguinha. Se pega em excessos de espontaneidade e diz que, dos sete pecados capitais, a preguiça é a que mais o importuna. Contudo, contra ela, diz ter a estratégia de se apegar ao seu ideal de vida.

Com açúcar

Padre Silvio é amável, estar na casa dele parece ir à casa da vó. Oferece um suco, refrigerante, pãozinho, leite com café, e insiste, como fazem as avós. Fala o tempo todo em Deus e sempre o remete ao amor. Só em Votuporanga, tem cerca de 70 projetos voltados para todos os públicos, de crianças a idosos, doentes, dependentes, pobres, mães solteiras. Em Rio Preto conquistou uma legião de fiéis. Mesmo quando não está servindo a Deus, se dedica aos pobres e quem precisa de ajuda. Foi ele quem montou a primeira Pastoral da Escuta da Diocese de Rio Preto, para atender àqueles que necessitam de alguém que os ouçam em um momento de angústia.

 

Fonte: Diário da Região –  13/01/2017

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